Terceirização da memória

 Um estudo da consultoria de TI International Data Corporation (IDC) mostra a atual multiplicação da informação: o volume mundial de dados digitais dobra a cada dois anos. “Como temos mais fontes de informação do que nunca, há uma chance maior de esquecer exatamente o que queríamos lembrar”, diz o psicólogo cognitivo James Worthen. Mas essa sensação contínua e desagradável de esquecimento não surgiu com os smartphones. Nem com a internet. Muito antes deles, outra novidade tecnológica foi acusada de deixar nossa memória sem fio: a escrita.

O filósofo grego Sócrates, que viveu no século 5 a.C., temia que as letras pudessem “enfraquecer a mente dos homens”. Para ele, a escrita só poderia ajudar alguém a lembrar do que já sabe, e a invenção poderia levar a sociedade a um caminho de declínio moral e intelectual. Ironicamente, seus conhecimentos chegaram a nós por causa de Platão, seu discípulo recém-alfabetizado.

“As novas tecnologias nos livram de fardos. As calculadoras fazem aritmética por nós, e esquecemos como fazer contas. O ciberespaço é nossa memória coletiva”, diz James Gleick, escritor americano que ganhou 3 prêmios Pulitzer e em março lançou o livro The Information: A History, a Theory, a Flood, onde narra a evolução da informação até a enxurrada atual. Em julho, a psicóloga Betsy Sparrow, da Universidade de Colúmbia, nos EUA, publicou um estudo na revista Science em que analisou o impacto das ferramentas de busca em nossos cérebros. Após um experimento com 100 estudantes de Harvard, ela descobriu que esquecemos justamente o que sabemos que podemos encontrar na internet, lembramos melhor o que não está disponível online. Além disso, somos melhores em lembrar onde encontrar alguma coisa na internet do que da informação em si. Ou seja, o “efeito Google” atrapalha nossa memória retentiva de dados, mas aumenta nossas habilidades de procura. A internet virou, de fato, nossa memória externa. “Se escolhermos entregar nossa memória à tecnologia, talvez fiquemos livres para explorar nossa criatividade onde as máquinas ainda não podem competir”, afirma Gleick. E já há quem viva para isso. FONTE: REVISTA GALILEU

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